coluna / Eliandro Kienteca

12:28:38 - 22/01/2010

Entre os coretos e a Sapucaí: atores, espectadores, foliões e carnavais

Eliandro Kienteca
Rio de Janeiro

Antes do samba havia o carnaval. O carnaval carioca, entretanto, não é concebível longe do samba (ao menos desde o início do século XX).

O desfile das escolas de Samba, desde sua oficialização por Getúlio Vargas em 1937, vem se tornando cada vez mais um grande espetáculo. Ganhou um palco. Ganhou destaque nacional. Mundial. Ganhou também, muitas regras a mais. Não podemos esquecer que também é competição, mas não é como no futebol. Tem lugar respeitável para o vice, para o terceiro, o sétimo e até para o último.

O samba como já disse em outras colunas, modificou-se. A exemplo do carnaval. No desfile das escolas de samba, há lugar para quem quer sentar-se na arquibancada e contemplar a beleza de uma escola de samba, de seus artistas, e ao mesmo tempo, para interagir com eles. Para tornar um desfile melhor ou pior do que seria sem o público. E o carnaval das ruas? Dos coretos? Dos blocos que tomam toda a cidade?

Bem, o carnaval é conhecido por ser a segunda vida do povo, sua vida festiva baseada no princípio do riso. É a paródia da vida cotidiana pelo povo. Este povo tem um papel de artista e de expectador. Qualquer um pode ter a roupa manchada pelo bloco de sujos, pode ganhar um beijo da colombina, pode dançar com o presidente da república, pode apertar as mãos do Imperador, pode estar mascarado, pode ser Pixinguinha, Romário, Clara Nunes, Araci de Almeida, Obama, Brizola, Bozo, Cartola, Superman, médico, fugitivo, Silvio Santos, Carmem Miranda, Maradona, bate bola, pai João...todos neste momento estão vivos e em toda a parte, a qualquer momento.

Se olharmos um pouco para traz, seja nas saturnais romanas, seja na idade média, “o carnaval ignora toda a distinção entre atores e expectadores. Também ignora o palco, mesmo em sua forma embrionária... o carnaval não era uma forma artística do espetáculo teatral, mas uma forma concreta (embora provisória) da própria vida” [1]. O carnaval de rua carioca (antes e após o samba) tem este mesmo princípio. E no Sambódramo, apesar do aspecto teatral e que aparentemente separa expectadores e artistas, ainda existe espaço para a interação do público.

Claro, inegavelmente não são a mesma coisa. O público tem na Sapucaí um lugar destacado das Escolas de Samba (que são as estrelas do espetáculo). Jamais poderá ter contato físico com os integrantes das Escolas (que disputam pontos), jamais será como um bloco de rua. No entanto, mesmo que de forma limitada, o público interage com as Escolas dando ao desfile (hoje oficial) um caráter descontraído, sendo o elo entre o carnaval espetáculo, e carnaval de rua. Os maiores aliados do público são os belos sambas de enredo, as belas alegorias, as empolgantes bossas da bateria, a alegria dos componentes, enfim, elementos produzidos por pessoas que são também foliões, como grande parte dos espectadores. Muitas vezes são as mesmas pessoas.

Talvez por isso, exista esta interação que põe um pouco do carnaval de rua na Avenida, fazendo da Avenida o que ela é. Fazendo do desfile das Escolas se Samba, algo bem diferente dos desfiles militares. Contrariando as próprias regras do desfile. Só de ordem não vive o carnaval, mesmo o organizado e oficial. Na verdade ele está na contrapartida da ordem. E os desfiles oficiais das Escolas de Samba são um grande exemplo da luta entre ordem e desordem: uma incessantemente provocando a outra, e em certos momentos chegando a se confundir. Tudo isso, graças aos foliões na Avenida e nas arquibancadas.

[1] BAKHTIN, Mikhail. A Cultura Popular na Idade Média e no Renascimento: O contexto de François Rabelais. São Paulo : Editora Universidade de Brasília , 1993 . p. 6-7.

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